Recursos naturais e geopolítica: O papel da América Latina nas cadeias globais de recursos naturais e inovação biotecnológica

 

 

Palavras-chave: América Latina; Biodiversidade; Biotecnologia; Geopolítica.

 

​A América Latina desempenha um papel fundamental no cenário global quando falamos de recursos naturais, consolidando-se não apenas como provedora de matéria-prima, mas como um pilar de estabilidade para a segurança alimentar e energética, além de apresentar grande potencial para o desenvolvimento biotecnológico. No contexto atual, a distinção entre recursos essenciais à manutenção biológica e social – como água e alimentos – e recursos estratégicos fundamentais para a indústria e soberania tecnológica tornou-se o centro do debate geopolítico.

​Atualmente, as negociações internacionais gravitam em torno de minerais essenciais para a transição energética e a digitalização, além de estratégias para a mitigação do aquecimento global. Os recursos naturais são variados e de grande importância, com destaque para a disponibilidade de minerais como ferro, cobre, ouro e prata, encontrados em países como Brasil, Chile, Peru e México. A região também conta com uma ampla rede hidrográfica, formada por rios e lagos de grande porte, como o Amazonas e o Paraná, que garantem abundantes recursos hídricos, além da presença de consideráveis reservas de petróleo em nações como Venezuela, México, Brasil e Argentina.

​Além disso, outros minerais estratégicos, como o lítio e o cobre, são vitais para a produção de baterias e semicondutores. Embora os hidrocarbonetos como gás e petróleo ainda ocupem espaço central nas discussões, a região também se destaca pelo potencial em energias renováveis e hidrogênio verde. Um exemplo da influência desses recursos no cenário global é o “Triângulo do Lítio”, composto por Chile, Bolívia e Argentina, que se configura como um ator-chave na região. A gestão desses depósitos minerais define a capacidade desses países de integrar cadeias de valor globais, bem como sua capacidade de priorizar práticas sustentáveis durante esse processo para a geração de valor agregado.

​O Peru, sendo um dos principais países mineradores do mundo, consolidou um papel geopolítico estratégico nas cadeias globais de recursos naturais, particularmente na produção de cobre, zinco, chumbo e prata. O país ocupa posições de destaque na produção e exportação internacional desses minerais, críticos para a transição energética e tecnologias emergentes. O país possui ainda importantes reservas de lítio e terras raras, o que lhe oferece a possibilidade de se integrar de maneira mais profunda nas cadeias de valor de tecnologias limpas, desde que sejam fortalecidos os marcos regulatórios, a governança de recursos e a biossegurança para o uso sustentável de sua biodiversidade genética.

​Um exemplo de sua rica e única biodiversidade é o milho andino, conhecido por sua diversidade genética e características singulares, além de apresentar grande importância cultural e nutricional. No entanto, para que essa riqueza se converta em resultados econômicos reais, é imperativo superar os entraves que frequentemente asfixiam a pesquisa e o comércio. O fortalecimento da governança de recursos, da biossegurança e da infraestrutura é o que permitirá ao país integrar-se de forma profunda nas cadeias de valor globais.

 

Figura 1 – Variedades nativas de milho andino: um exemplo da vasta biodiversidade genética do Peru. Fonte:  Alexander Schimmeck na Unsplash, 2021.

 

​Outros desafios ainda são persistentes no país, como a mineração informal e ilegal e os conflitos socioambientais com comunidades locais, evidenciando a necessidade de políticas públicas mais eficazes. Tais políticas devem equilibrar a exploração de recursos com a conservação de ecossistemas e o respeito aos direitos dos povos indígenas, elementos que se tornam cada vez mais centrais na política interna e nas negociações internacionais.

 

Figura 2 – Minério de ferro, um dos minerais de referência no Brasil, que se consolidou como um dos maiores produtores globais. A região de Carajás, no Pará (Amazônia), possui a maior mina de minério de ferro a céu aberto do mundo, embora os impactos ambientais estejam no centro das discussões. Fonte: Caboclin em iStock.

 

​A convergência entre biodiversidade e inovação tecnológica projeta a região para além do setor primário. Além do Peru, temos como exemplo o Brasil, possuidor de uma base genética de biodiversidade utilizada como ativo para a bioprospecção. Essa área tem sido estudada intensamente nos últimos anos e o debate se intensificou com a realização da COP 30 em 2025. Os estudos variam desde plantas medicinais a fungos de ambientes extremos, bactérias e moléculas. Contudo, a região ainda enfrenta desafios estruturais significativos para a consolidação de parcerias público-privadas em inovação no desenvolvimento biotecnológico pleno. Esse cenário configura-se como um risco ao patrimônio genético nacional, permitindo que o desenvolvimento de fármacos, cosméticos e novos materiais a partir da biodiversidade muitas vezes necessite de estudos no exterior ou acabe engavetado, sem o retorno real à região. O fato é que essa riqueza natural representa uma fronteira de alto valor agregado para todos os países latino-americanos nos quais a Amazônia se faz presente.

 

Figura 3 – Floresta Amazônica, representa uma fonte estratégica de recursos naturais e base para biotecnologia na América Latina. Fonte: David Geere na Unsplash, 2020.

 

​Quando se trata de recursos hídricos, voltamos novamente ao bioma Amazônico. A Bacia Amazônica abrange diversos países da América do Sul. O Brasil concentra a maior parte desse território, com cerca de 60% da área total. Em seguida está o Peru, que possui aproximadamente 13% da Amazônia e abriga a nascente do rio Amazonas. A Colômbia também faz parte da região, desempenhando um papel estratégico tanto para a segurança quanto para a conservação da biodiversidade. A Bolívia tem uma parcela significativa de seu território inserida na Amazônia, enquanto a Venezuela conta com áreas amazônicas ao sul do país, fundamentais para sua hidrografia.

​O Equador, apesar de ter uma porção menor, depende economicamente da região, especialmente pela exploração de petróleo. A Guiana se destaca por ser quase totalmente coberta por florestas, e o Suriname também integra a área, apresentando vasta cobertura vegetal preservada. Complementa esse cenário a Guiana Francesa, território que integra a França à dinâmica amazônica. A região é um dos maiores exportadores líquidos de alimentos. O desafio atual reside no investimento estratégico e na adequação de infraestruturas que permitam o avanço de projetos ousados, contribuindo para o progresso da ciência e tecnologia latino-americana no cenário geopolítico de maneira legal e justa.

​A integridade da biodiversidade enfrenta desafios complexos decorrentes de atividades extrativistas não regulamentadas e do comércio ilícito de recursos biológicos. A extração indiscriminada de espécies da flora e a comercialização não autorizada de fauna, aliadas a práticas de mineração sem o devido manejo ambiental, exercem uma pressão constante sobre ecossistemas sensíveis, comprometendo a resiliência biológica da região. Um ponto de atenção crescente é o uso da biotecnologia a partir de patrimônios genéticos obtidos de forma irregular, processo frequentemente associado à biopirataria por mercados paralelos, envolvendo ainda recursos químicos oriundos de tais fontes que representam um risco não apenas para a conservação, mas para a própria soberania tecnológica.

​Enquanto o uso da biodiversidade se consolida em cenários paralelos, o comércio legal perde espaço, o que favorece a expansão da exploração ilícita e a consolidação desses mercados informais. Estes se aproveitam das lacunas regulatórias e das assimetrias de informação para operar à margem das normas socioambientais, comprometendo tanto a integridade dos ecossistemas quanto a segurança jurídica necessária para atrair investimentos de alto valor agregado. No Brasil, a Lei da Biodiversidade e o SisGen buscam proteger o patrimônio genético brasileiro, demonstrando avanços significativos no setor; no entanto, a complexidade regulatória por vezes desestimula a pesquisa científica formal na Amazônia, o que reflete negativamente em sua posição na bioeconomia global.

​Ao tornar a via legal lenta, o processo acaba favorecendo involuntariamente o uso informal e não rastreável desses recursos. Esse cenário de exploração informal ou ilegal subtrai valor das cadeias produtivas locais e dificulta a implementação de políticas eficazes de desenvolvimento sustentável. Diante desse panorama, o fortalecimento dos marcos regulatórios e a cooperação internacional para o monitoramento de ativos biológicos e minerais tornam-se mecanismos essenciais para garantir que a riqueza natural da América Latina seja preservada e utilizada como base para uma bioeconomia legalizada e de interesse multilateral.

​A posição da América Latina como zona de relevância no cenário global cria um dilema de desenvolvimento: a pressão por resultados financeiros imediatos através de práticas de exploração intensiva paralela não condiz com a legalidade e com a realidade científica e tecnológica necessária. A alternativa sustentável exige políticas que priorizem a conservação e o uso inteligente dos recursos, além de investimento estratégico em infraestrutura, tema que urge estar no centro de debates e negociações entre os países da região. Para que a região não seja apenas um fornecedor passivo, é necessária a consolidação de parcerias que incluam transferência de tecnologia e promoção do desenvolvimento local. A geopolítica atual não se resume ao acesso aos recursos de maneira insustentável, mas à capacidade de processá-los e inovar a partir deles, visando o bem-estar econômico e social e a articulação entre setores públicos e privados.

​Esse reposicionamento estratégico faz com que países antes vistos meramente como reservas de matérias-primas passem a se tornar um nexo crítico entre segurança ambiental e inovação tecnológica. No âmbito da segurança alimentar, a região consolida-se como o principal fornecedor líquido global, enfrentando agora o desafio de integrar ferramentas de biotecnologia avançada para mitigar os impactos das oscilações climáticas e garantir a resiliência das safras sem comprometer seus biomas.

​Geopoliticamente, o continente encontra-se no centro de uma dinâmica complexa de cooperação e competição por recursos essenciais e influências externas. Esse contexto exige que as nações latino-americanas busquem um equilíbrio entre a atração de investimentos estrangeiros e o fortalecimento de sua própria soberania, visando transformar a riqueza de seus recursos naturais em um modelo de desenvolvimento que priorize o valor agregado e a estabilidade de longo prazo.

​Em suma, é importante que os países da América Latina não se configurem apenas como fornecedores de matérias-primas, mas assumam um posicionamento estratégico nas cadeias globais de valor. Para isso, é fundamental o investimento em infraestrutura e capacitação voltada à pesquisa e inovação tecnológica, permitindo o desenvolvimento local de tecnologias limpas e sustentáveis. Nesse cenário, a implementação de parcerias público-privadas apresenta-se como o mecanismo ideal para viabilizar o uso legal e estratégico da biodiversidade genética e dos recursos naturais. Essas parcerias podem garantir a biossegurança e a conservação dos ecossistemas, transformando a riqueza biológica em um ativo econômico de alto valor agregado, enquanto mitigam conflitos socioambientais em escala nacional e internacional e asseguram o respeito aos direitos das comunidades tradicionais.

 

​REFERÊNCIAS 

​ERNST & YOUNG (EY). Peru’s Mining & Metals Investment Guide 2024/2025. Lima: EY, 2024. Disponível em: https://www.ey.com/es_pe/insights/mining-metals/mining-metals-investment-guide-2024-2025. Acesso em: 18 jan. 2026.

​JORNADA AMAZÔNIA. O que é e como funciona a bioprospecção. [S. l.]: Plataforma Jornada Amazônia, [s. d.]. Disponível em: https://jornadaamazonia.org.br/o-que-e-e-como-funciona-a-bioprospeccao/. Acesso em: 18 jan. 2026.

​MELO, Henrique de. Recursos naturais e diferentes fontes de energia na América Latina – EF08GE31: Resumo para Aulas. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://resumoparaaulas.com.br/recursos-naturais-e-diferentes-fontes-de-energia-na-america-latina-ef08ge31-2/. Acesso em: 18 jan. 2026.

​REUTERS. Produção de minério de ferro da Vale (VALE3) em Carajás pode aumentar a 200 mi t em 2030. Money Times, 14 fev. 2025. Disponível em: https://www.moneytimes.com.br/producao-de-minerio-de-ferro-da-vale-em-carajas-pode-aumentar-a-200-mi-t-em-2030-rnda/. Acesso em: 18 jan. 2026.

​SANT’ANNA, Fernanda M. Bacia Amazônica: integração, infraestrutura e relações bilaterais e multilaterais. In: Governança multiescalar dos recursos hídricos transfronteiriços na Amazônia [online]. São Paulo: Editora Unesp, 2017. p. 109-198. ISBN: 978-85-9546-180-2. Disponível em: https://doi.org/10.7476/9788595461802.0003. Acesso em: 18 jan. 2026.

 

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