Mercosul–União Europeia: Um Acordo Negociado por Mais de Duas Décadas e Seus Impactos no Cenário Global

Contexto Internacional e Histórico: Pós-Guerra Fria e a Formação dos Blocos Regionais

9 de novembro de 1989. A queda do Muro de Berlim. Esse acontecimento simbolizou o colapso de uma ordem bipolar que estruturou o sistema internacional por mais de quatro décadas. A partir desse momento, as nações passaram a buscar novos modos de organização, visto que as profundas mudanças e transformações políticas, econômicas e sociais da época não se manifestaram de maneira homogênea.

Enquanto a Europa avançava em uma direção de integração cada vez mais profunda entre suas nações, a América Latina – que durante a Guerra Fria ocupou uma posição periférica no sistema internacional, com autonomia limitada – passou a buscar novos caminhos para sua inserção global. Era um cenário orientado para a globalização, o multilateralismo e a intensificação dos fluxos comerciais.

A ideia de uma integração de países europeus estabelecendo mercado único, livre circulação e moeda comum teve início por um sonho de paz no pós-Segunda Guerra. Tudo começou em 1951 com a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, proposta pela França e composta por seis países (incluindo Alemanha Ocidental, Bélgica e Itália). Tratava-se de uma cooperação estreita com o objetivo de garantir a paz no continente e estabelecer uma base econômica robusta em setores estratégicos.

Em 1957, com a assinatura do Tratado de Roma, foi criada a Comunidade Econômica Europeia (CEE), que expandiu o escopo de integração. Após a Reunificação Alemã em 1990, o bloco contava com 13 membros. Por fim, em 1992, o Tratado de Maastricht instituiu a União Europeia como a conhecemos hoje: 27 países e uma população aproximada de 450,4 milhões de pessoas.

O caminho para a criação do Mercosul, marcado pela assinatura do Tratado de Assunção em março de 1991, seguiu uma trajetória distinta. Refletiu os esforços dos países sul-americanos – especialmente Brasil e Argentina – para superar rivalidades históricas, promover a integração regional e ampliar sua capacidade de inserção no comércio internacional.

O Mercosul surgiu em um contexto de redemocratização, superando regimes autoritários marcados por repressão e instabilidade. O bloco foi criado visando à abertura econômica, à adaptação às dinâmicas da globalização dos anos 1990 e ao aumento do peso da região nas negociações internacionais. Hoje, suas dimensões ultrapassam a economia, abrangendo esferas sociais e de cidadania.


O Início das Negociações Mercosul–União Europeia

As negociações entre o Mercosul e a União Europeia iniciaram-se formalmente há mais de duas décadas, no ano 2000, em um mundo já marcado pela globalização consolidada e pelo regionalismo como estratégia. Para o Mercosul, o acordo representava a possibilidade de acessar de maneira efetiva um dos maiores mercados consumidores do mundo, atrair investimentos e firmar novas parcerias. Para a União Europeia, tratava-se de aprofundar relações com economias emergentes, garantir acesso a commodities e reforçar sua presença política na América do Sul, evitando a perda de relevância no continente.

Inicialmente, as negociações foram concebidas como um “acordo de associação”, abrangendo não apenas comércio, mas também diálogo político e cooperação. Essa amplitude, considerada ambiciosa por muitos especialistas, contribuiu para a complexidade e a demora do processo.


Impasses, Resistências Políticas e a Retomada

A trajetória do acordo foi marcada por impasses decorrentes, principalmente, de resistências políticas internas na União Europeia. Embora críticas também tenham surgido no Mercosul, elas se manifestaram de forma mais fragmentada.

Na Europa, a oposição intensificou-se no final da década de 2010. O temor central era o aumento da concorrência de produtos agropecuários do Mercosul, produzidos com custos menores e sob marcos regulatórios distintos. Os europeus citavam a assimetria nas exigências ambientais (como o uso de pesticidas) e as metas do Pacto Verde (Green Deal) como barreiras para a aceitação dos produtos sul-americanos.

Essas tensões tornaram-se visíveis recentemente. Entre 17 e 18 de dezembro de 2025, episódios emblemáticos de mobilização social ocorreram em Bruxelas, sede das instituições da UE. Milhares de agricultores de países como França, Itália e Bélgica bloquearam vias com tratores e entraram em confronto com forças de segurança, expressando o temor de que a liberalização comercial prejudicasse a produção local.

Politicamente, a França destacou-se como o principal polo de resistência, condicionando seu apoio a garantias ambientais rígidas (“cláusulas espelho”). A Itália adotou postura cautelosa para não desagradar sua base rural, enquanto a Alemanha posicionou-se favoravelmente, argumentando que o acesso ao mercado sul-americano é estratégico diante da competição global.

No Mercosul, as resistências concentraram-se em setores industriais (especialmente no Brasil e na Argentina), preocupados com a competição de manufaturados europeus. Contudo, o setor agrícola do bloco – altamente competitivo – sempre viu no acordo uma oportunidade, e não uma ameaça.


O Papel do Brasil e do Ministério das Relações Exteriores

O interesse renovado na conclusão do acordo pode ser compreendido pelo contexto de mudanças na ordem internacional e pela necessidade europeia de diversificar parceiros. Com a Organização Mundial do Comércio (OMC) enfraquecida e as cadeias globais fragmentadas, acordos birregionais ganharam peso. O Brexit também influenciou a UE a buscar novos mercados fora da Europa.

O Brasil desempenhou papel central na retomada das negociações. A partir de uma atuação coordenada entre a Presidência e o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o acordo foi reposicionado como prioridade. O Itamaraty articulou posições dentro do Mercosul e manteve diálogo contínuo com a Comissão Europeia, respondendo às preocupações ambientais sem comprometer o desenvolvimento nacional.

O engajamento direto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com lideranças europeias manteve o tema na agenda de alto nível, apresentando o Brasil como um interlocutor confiável e ambientalmente responsável. Essa combinação de diplomacia técnica e presidencial foi decisiva para evitar o esvaziamento das negociações.


Pode-se Dizer que um Bloco Precisa Mais do Acordo do que o Outro?

Essa questão divide os analistas. Frequentemente, aponta-se que o Mercosul tende a obter ganhos relativos mais imediatos, acessando um mercado desenvolvido, garantindo previsibilidade jurídica para investimentos e fortalecendo sua inserção internacional.

Por outro lado, a União Europeia, embora economicamente menos dependente, vê no acordo uma oportunidade geopolítica crucial: reduzir vulnerabilidades externas, garantir acesso a matérias-primas e alimentos, e diversificar parceiros em um mundo onde a influência de outras potências, como a China, cresce na América Latina.


Perspectivas Futuras

Após mais de 26 anos, o debate desloca-se do “se” para o “como” o acordo será implementado. Trata-se de um marco na relação transatlântica. Mais do que um instrumento comercial, o tratado consolida uma parceria estratégica entre economias com níveis distintos de desenvolvimento. Seus efeitos reais dependerão da implementação das políticas adotadas e da capacidade dos governos de mitigar as assimetrias e aproveitar as oportunidades de um mercado integrado de mais de 700 milhões de pessoas.


REFERÊNCIAS

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