A América Latina pode construir uma bioeconomia enquanto protege seu capital natural?

Decisões políticas sobre biodiversidade, recursos naturais, sementes, conservação e desenvolvimento produtivo no México, Colômbia, Brasil, Peru e Chile
Ulises Costilla | Agosto de 2026
A América Latina abriga cerca de 40% da biodiversidade mundial e possui alguns dos ecossistemas mais extensos do planeta. Nos últimos anos, vários governos da região começaram a formular políticas para transformar essa biodiversidade em um motor de crescimento econômico por meio da bioeconomia. No entanto, cada decisão sobre quanto explorar, quanto conservar e quem pode se beneficiar desses recursos coloca em evidência uma pergunta incômoda: a valorização econômica da natureza está fortalecendo as condições ecológicas que a tornam possível ou está consumindo essas mesmas condições?
1. A decisão que torna o problema visível
Em abril de 2026, a Corporación Autónoma Regional de Cundinamarca (CAR) emitiu a Resolução DJA nº 50267000347, que analisou o pedido de prorrogação da concessão para captação de águas subterrâneas apresentado pela Industria Nacional de Gaseosas S.A.S. (INDEGA), empresa engarrafadora da Coca-Cola FEMSA na Colômbia [1]. A resolução não cancelou a concessão, mas impôs restrições significativas: reduziu de sete para quatro o número de nascentes autorizadas, diminuiu a vazão permitida de 3,23 litros por segundo para 1,9 litro por segundo — uma redução de 42% — e reduziu a duração da concessão de dez para cinco anos [2].
Como condições adicionais, a empresa deverá instalar um sistema de medição em tempo real da vazão captada, adquirir 53,4 hectares de áreas de páramo e de ecossistemas alto-andinos para fins de conservação e suspender a captação durante períodos de seca ou quando o balanço hídrico da microbacia estiver comprometido [2].
A decisão ocorreu após mais de um ano de análises técnicas que incluíram modelagens hidrológicas, matrizes de variabilidade climática, manifestações de comunidades e uma audiência pública [2]. O contexto não era trivial: em 2024, Bogotá e municípios vizinhos adotaram medidas de racionamento de água enquanto a empresa continuava captando o recurso nas nascentes da localidade de Santa Elena, no município de La Calera [3].
O caso revela algo mais complexo do que um conflito entre uma empresa e um ecossistema: trata-se de um problema de governança de recursos naturais, no qual é necessário decidir quem define o destino de um serviço ecossistêmico estratégico quando entram em disputa o consumo humano, a atividade produtiva e a conservação ambiental.
2. O verdadeiro problema não é apenas a água
A água de La Calera não é apenas um recurso hídrico. Ela faz parte do capital natural da Colômbia: o conjunto de ativos ambientais — biodiversidade, solos, florestas, recursos genéticos e ecossistemas marinhos, entre outros — que fornecem serviços ecossistêmicos essenciais para a atividade econômica e para a vida humana [4].
Quando uma autoridade ambiental estabelece uma vazão de captação para uma empresa engarrafadora, não está simplesmente distribuindo litros de água. Está tomando uma decisão sobre como utilizar uma infraestrutura ecológica que sustenta diversas atividades produtivas e necessidades sociais.
Essa distinção é fundamental para compreender a tensão que atravessa a América Latina. A biodiversidade não é apenas patrimônio ambiental. Ela também constitui infraestrutura econômica: fornece alimentos, ingredientes funcionais, medicamentos, cosméticos, biomateriais, biocombustíveis e oportunidades relacionadas ao turismo [4].
Entretanto, existe uma condição física para que essa infraestrutura continue funcionando: os ecossistemas precisam manter sua integridade.
Quando o capital natural é degradado, os serviços ecossistêmicos diminuem, as matérias-primas podem se tornar mais escassas e a própria base produtiva da bioeconomia começa a se enfraquecer.
3. O que isso tem a ver com bioeconomia?
A bioeconomia pode ser definida, segundo a Food and Agriculture Organization (FAO, na sigla em inglês), como a produção, utilização, conservação e regeneração de recursos biológicos, incluindo os conhecimentos, a ciência, a tecnologia e a inovação relacionados, com o objetivo de oferecer soluções sustentáveis em todos os setores econômicos e para esses setores [5]. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por sua vez, definiu a bioeconomia como o conjunto de atividades econômicas nas quais a biotecnologia contribui para a produção primária e para a indústria [6].
É importante não confundir bioeconomia com conceitos próximos, mas distintos.
O biocomércio está relacionado ao comércio de bens e serviços derivados da biodiversidade segundo critérios de sustentabilidade. A economia circular abrange materiais biológicos e não biológicos e prioriza a redução de resíduos, a reutilização e a manutenção dos materiais em circulação [7]. Já a economia verde é um conceito mais amplo, que pode englobar tanto a bioeconomia quanto a economia circular [7].
A bioeconomia, por sua vez, concentra-se especificamente na utilização sustentável de recursos biológicos renováveis para gerar valor econômico por meio do conhecimento, da ciência, da tecnologia e da inovação.
A cadeia lógica pode ser representada da seguinte maneira:
biodiversidade → capital natural → serviços ecossistêmicos → recursos biológicos → conhecimento e inovação → produtos e serviços → valor econômico
Mas essa cadeia contém um paradoxo.
A bioeconomia precisa gerar valor a partir de recursos biológicos. Entretanto, se sua extração ou utilização provocar a degradação do capital natural, ela poderá acabar enfraquecendo justamente a base produtiva que sustenta sua existência.
Isso não é uma conclusão ideológica. É um problema de política pública que exige regras claras sobre limites de utilização, conservação, distribuição de benefícios e responsabilidade pelos impactos ambientais.
4. América Latina: cinco países, uma tensão comum
Nem todos os países latino-americanos enfrentam o mesmo problema, mas cada um deles ilustra uma dimensão diferente da mesma tensão entre conservação, desenvolvimento e valorização econômica dos recursos biológicos.
México: sementes, recursos genéticos e soberania alimentar
Em março de 2025, a Câmara dos Deputados do México aprovou uma reforma constitucional que proíbe o cultivo de milho geneticamente modificado no território nacional [8].
A medida, impulsionada pelo governo da presidente Claudia Sheinbaum, busca preservar as variedades nativas de milho e proteger o patrimônio biocultural do país [8].
Entretanto, a decisão não está livre de tensões. Em dezembro de 2024, um painel de resolução de disputas do T-MEC concluiu que determinadas restrições mexicanas ao milho geneticamente modificado não tinham justificativa científica suficiente e violavam compromissos assumidos no acordo comercial [8].
Em resposta, o México retirou as restrições à importação de milho geneticamente modificado destinado ao consumo humano, à alimentação animal e ao uso industrial, mas manteve a proibição de seu cultivo em território nacional [8].
A questão analítica é:
As políticas relacionadas às sementes e aos recursos genéticos estão fortalecendo ou limitando a diversidade biológica e a capacidade de inovação dos sistemas agroalimentares?
As evidências disponíveis mostram, por um lado, que a proteção do milho nativo responde a uma demanda social e cultural significativa. Por outro lado, a ausência de um protocolo público padronizado de biomonitoramento dificulta a avaliação do estado real da contaminação genética das variedades nativas [9].
Não há evidências suficientes para afirmar que o México esteja simplesmente "desprotegendo" suas sementes. O que existe é uma tensão documentada entre conservação da agrobiodiversidade, compromissos comerciais internacionais e capacidade técnica do Estado para monitorar o cumprimento das normas.
Colômbia: água, páramos e alocação de serviços ecossistêmicos
O caso da INDEGA em La Calera, apresentado na primeira seção, representa a dimensão relacionada aos serviços ecossistêmicos hídricos.
A decisão da CAR não interrompeu a atividade empresarial, mas estabeleceu que a utilização de um recurso estratégico deve estar condicionada à disponibilidade hídrica, à conservação dos ecossistemas e à priorização do consumo humano em situações de estresse hídrico [2].
Isso sugere que a autoridade ambiental está tentando compatibilizar atividade produtiva e conservação por meio de condicionantes técnicos. Entretanto, organizações sociais argumentaram que a decisão pode não ser suficiente para garantir a sustentabilidade do recurso no longo prazo [1].
O ponto relevante, portanto, não é simplesmente perguntar se a Coca-Cola deveria ou não utilizar aquela água.
A questão mais ampla é:
Quais critérios devem determinar quanto de um recurso natural estratégico pode ser utilizado por uma atividade econômica e quais obrigações devem acompanhar esse uso?
Brasil: Amazônia, bioeconomia e transformação produtiva
O Brasil é provavelmente o caso mais importante da região pela escala de sua biodiversidade e pela dimensão da Amazônia em seu território.
Em abril de 2026, o governo federal lançou o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), estruturado em oito missões estratégicas e 21 metas distribuídas em três eixos: sociobioeconomia e ativos ambientais; bioindustrialização competitiva; e produção sustentável de biomassa [10].
O plano prevê a destinação de mais de R$ 350 milhões do Fundo Amazônia para projetos de sociobioeconomia e inovação, com foco em cadeias como açaí, babaçu, castanha e cupuaçu. A iniciativa deverá beneficiar mais de 5.000 famílias e 60 instituições científicas [11].
Um estudo do WRI Brasil estima que a combinação entre bioeconomia e restauração florestal poderia gerar US$ 8 bilhões adicionais em PIB e mais de 830 mil empregos até 2050 [12].
O Banco Mundial, por sua vez, apontou que a Amazônia poderia gerar aproximadamente US$ 535 milhões por ano mantendo a floresta em pé, valor superior ao gerado por sua exploração para pecuária ou agricultura tradicional [12].
No entanto, as evidências também revelam tensões.
No mesmo período em que o governo lançava o PNDBio, o Congresso aprovou a Lei nº 15.190, que amplia as possibilidades de licenciamento ambiental simplificado e dispensa determinados controles para diversas atividades agropecuárias [13].
A coexistência de políticas que aparentemente apontam em direções diferentes sugere que a bioeconomia amazônica brasileira ainda enfrenta o desafio de construir um marco regulatório capaz de conciliar conservação ambiental e expansão produtiva.
A pergunta permanece:
O Brasil está construindo uma bioeconomia amazônica baseada em inovação e agregação de valor ou existe o risco de reproduzir modelos extrativistas sob uma nova denominação?
A evidência disponível ainda não permite responder definitivamente.
Peru: o experimento político mais explícito
Em junho de 2026, o Ministério do Meio Ambiente (MINAM) publicou o projeto de Decreto Supremo que aprova a Folha de Rota da Bioeconomia do Peru [14].
O documento propõe que a bioeconomia represente entre 13% e 16% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional até 2050 [15].
Trata-se de uma das propostas mais ambiciosas da região, pois estabelece uma meta quantitativa e vincula explicitamente a biodiversidade ao desenvolvimento econômico.
O caso peruano levanta uma questão crucial:
O país está criando simultaneamente as condições para valorizar economicamente sua biodiversidade e para conservar o capital natural que torna essa valorização possível?
O documento ainda se encontra em fase de proposta, e não foram encontradas evidências suficientes para determinar se os mecanismos de conservação previstos são proporcionais à escala da valorização econômica pretendida.
A resposta dependerá da implementação futura das políticas de financiamento, pesquisa, inovação, conservação e distribuição de benefícios.
Chile: biodiversidade como política transversal
Em março de 2026, o Conselho de Ministros para a Sustentabilidade e as Mudanças Climáticas aprovou a Estratégia Nacional de Biodiversidade 2025–2030, um instrumento composto por cinco objetivos e 39 metas, destinado a alinhar o país ao Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal [16].
A estratégia inclui metas como proteger pelo menos 30% das áreas terrestres e marinho-costeiras, incorporar um milhão de hectares a processos de restauração e fortalecer a conservação de espécies ameaçadas [17].
O aspecto relevante do caso chileno é que a estratégia não é apresentada apenas como uma política ambiental isolada. Ela procura funcionar como uma política transversal, integrando variáveis econômicas — como capital natural e participação do setor produtivo — a metas ecológicas e sociais [16].
A pergunta analítica é:
É possível incorporar a biodiversidade à política produtiva como um ativo estratégico, em vez de tratar a conservação como uma agenda separada?
As evidências disponíveis mostram que o Chile está construindo uma arquitetura institucional para tentar fazer isso. Entretanto, os resultados concretos dessa integração ainda não podem ser avaliados.
5. O problema que está por trás dessas decisões
Depois de analisar os cinco casos, emerge um padrão.
As decisões políticas sobre biodiversidade na América Latina não são apenas decisões técnicas. Elas também envolvem quem controla os recursos, quem se beneficia de sua utilização e quem assume os custos de sua conservação.
Na Colômbia, a CAR decidiu que a INDEGA poderia continuar operando, mas com menor volume de captação e maiores obrigações ambientais.
No México, o Congresso priorizou a proteção do milho nativo em relação ao cultivo de milho geneticamente modificado, embora a política tenha produzido conflitos comerciais documentados.
No Brasil, o governo lança uma política nacional de bioeconomia enquanto, paralelamente, são aprovadas mudanças que reduzem determinadas exigências de licenciamento ambiental para atividades produtivas.
No Peru, projeta-se uma bioeconomia que poderia representar até 16% do PIB sem que ainda estejam completamente definidos os mecanismos de salvaguarda necessários para sustentar essa expansão.
No Chile, busca-se integrar conservação e produtividade dentro de uma mesma estrutura de política pública.
Isso não demonstra que os governos estejam "desprotegendo" sistematicamente a biodiversidade. Tampouco demonstra que a bioeconomia seja inerentemente destrutiva.
O que as evidências permitem afirmar é que existe uma tensão estrutural entre transformar a natureza em um ativo econômico e preservar as condições ecológicas que permitem gerar esse valor no longo prazo.
6. Quem paga pela conservação do capital natural?
A conservação da biodiversidade exige recursos financeiros que a região ainda não consegue mobilizar em quantidade suficiente.
Segundo a iniciativa BIOFIN do PNUD, a Colômbia investiu aproximadamente US$ 660 milhões por ano entre 2014 e 2023 na gestão de sua biodiversidade. Entretanto, para cumprir os objetivos de seu Plano de Ação de Biodiversidade até 2030, seriam necessários aproximadamente US$ 19,4346 bilhões, o que representa uma lacuna financeira de 73,9% [18].
Isso significa que o país precisaria ampliar significativamente seus investimentos em conservação.
A pergunta central é:
Se conservar a biodiversidade exige grandes volumes de recursos, a bioeconomia poderia se tornar, pelo menos parcialmente, um mecanismo para financiar a conservação?
Em teoria, sim.
Se a valorização econômica dos recursos biológicos gerar receitas que sejam parcialmente reinvestidas na manutenção do capital natural, a bioeconomia poderia contribuir para financiar sua própria base ecológica.
Mas existe também o risco oposto.
A busca por rentabilidade pode transformar a conservação em uma simples oportunidade de mercado e deixar em segundo plano valores ecológicos e sociais que não são facilmente convertidos em dinheiro.
7. A bioeconomia pode financiar sua própria base ecológica?
Os mecanismos disponíveis na região incluem orçamento público, cooperação internacional, fundos ambientais, pagamentos por serviços ecossistêmicos, investimento privado, títulos de biodiversidade e linhas de crédito verde [18].
O caso brasileiro é ilustrativo.
O Fundo Amazônia, criado em 2008, aprovou e contratou R$ 4 bilhões entre 2023 e 2025, correspondentes a 58% de todo o volume financeiro movimentado pelo fundo desde sua criação [11].
Isso demonstra que existe capacidade de mobilização de capital. Entretanto, também evidencia que o financiamento da conservação depende de decisões políticas, prioridades governamentais e continuidade institucional.
As evidências sugerem que a bioeconomia, sozinha, não resolverá o problema do financiamento da conservação se não existirem regras capazes de incorporar os custos ambientais às cadeias de valor.
Se uma empresa utiliza água, frutos amazônicos ou conhecimento tradicional sem contribuir proporcionalmente para a conservação do ecossistema de origem, a bioeconomia corre o risco de se transformar em uma nova forma de extração — apenas com uma nova linguagem.
8. O que deveria mudar?
A partir da análise dos cinco países, é possível propor algumas mudanças concretas e realistas:
1. Integrar indicadores de capital natural às políticas de bioeconomia
Se a bioeconomia for avaliada apenas pelo valor econômico que gera, poderá existir um incentivo perverso à superexploração dos recursos.
As políticas deveriam avaliar também quanto capital natural é conservado ou restaurado por unidade de valor econômico gerado.
2. Estabelecer salvaguardas regulatórias antes de ampliar a valorização econômica
O Peru possui uma meta ambiciosa para 2050, mas a escala da transformação produtiva precisa ser acompanhada por limites claros de utilização, monitoramento científico e mecanismos de distribuição de benefícios.
O Brasil mostra que uma política de bioeconomia pode coexistir com mudanças que reduzem determinados controles ambientais. Essa possível contradição precisa ser enfrentada no âmbito regulatório.
3. Fortalecer a participação das comunidades locais na governança dos recursos
A decisão da CAR na Colômbia incluiu audiência pública e mecanismos de participação comunitária [2]. Entretanto, a participação social precisa ir além da consulta formal.
Em determinados recursos estratégicos, pode ser necessário considerar modelos de cogestão, monitoramento comunitário e participação efetiva na tomada de decisões, desde que sejam compatíveis com o marco jurídico de cada país.
4. Reduzir a distância entre pesquisa científica e política pública
O caso mexicano demonstra a importância de sistemas robustos de biomonitoramento para avaliar o estado das variedades nativas de milho [9].
Sem evidências científicas confiáveis, as políticas relacionadas às sementes operam em um ambiente de incerteza que pode enfraquecer tanto a conservação quanto a inovação.
9. Minha posição
As evidências analisadas não permitem concluir que a América Latina esteja implementando uma bioeconomia sustentável de maneira consistente. Tampouco permitem afirmar que a região esteja sistematicamente desprotegendo sua biodiversidade.
O que elas mostram é que a região está diante de uma encruzilhada.
A bioeconomia latino-americana não deveria ser avaliada apenas pela quantidade de valor econômico que consegue gerar a partir dos recursos biológicos, mas também pela sua capacidade de manter e ampliar o capital natural que sustenta esse valor.
Se a biodiversidade constitui uma forma de infraestrutura econômica, sua conservação não deve ser tratada como um custo ambiental opcional. Ela é um investimento necessário para que a bioeconomia continue funcionando no futuro.
Quem captura o valor econômico da biodiversidade não é necessariamente quem paga pela sua conservação.
Enquanto essa assimetria persistir, o risco de um novo extrativismo sob a linguagem da bioeconomia continuará existindo.
Por isso, acredito que a discussão não deveria ser simplesmente sobre explorar ou não explorar a biodiversidade.
A questão mais importante é:
Como transformar a valorização econômica da biodiversidade em um mecanismo que também aumente a capacidade de conservar essa biodiversidade?
Isso exige mecanismos que aproximem rentabilidade e conservação, como pagamentos por serviços ecossistêmicos vinculados a cadeias produtivas, regras obrigatórias de compensação ambiental, mecanismos de propriedade intelectual que reconheçam o conhecimento tradicional e maior transparência na distribuição dos benefícios econômicos.
Conclusão
O caso da INDEGA em La Calera não é apenas uma notícia sobre uma empresa e algumas nascentes.
É uma janela para uma questão muito maior que a América Latina precisa enfrentar:
Como devemos governar a biodiversidade quando ela deixa de ser vista apenas como patrimônio natural e passa a ser considerada um ativo estratégico para o desenvolvimento econômico?
A resposta não pode ser nem a proibição absoluta de qualquer utilização dos recursos naturais, nem a mercantilização da natureza sem limites.
Precisamos de uma arquitetura de políticas públicas capaz de tratar conservação e produção como agendas inseparáveis, medir simultaneamente criação de valor, distribuição de benefícios e conservação do capital natural e reconhecer que a biodiversidade só será uma vantagem competitiva sustentável se as futuras gerações encontrarem os ecossistemas em condições de continuar produzindo essa vantagem.
A verdadeira bioeconomia não deveria ser aquela que simplesmente transforma a natureza em dinheiro. Deveria ser aquela capaz de transformar biodiversidade em valor sem destruir a capacidade da própria biodiversidade de continuar gerando valor.
Referências:
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Autor: Ulises Costilla é graduado em biologia, estudante de bioeconomia amazônica e pesquisador do Núcleo de Pesquisa e Produção Acadêmica (NUPPA). Orcid: 0009-0001-8261-828X.
Revisor: João Diego Costa é estudante de Relações Internacionais e Filosofia, pesquisador em América Latina na UFPel, poeta, presidente e pesquisador do Instituto de Políticas Internacionais (IPI). ORCid: 0009-0001-2004-5666.
Editora: Amanda Beatriz Guimarães Alves é estudante de Ciência da Computação na Universidade do Distrito Federal e membro do setor de TI do IPI, ORCid: 0009-0000-4247-8983.